sexta-feira, 17 de agosto de 1990

Caro irmão Ricardo,
ouve um pouco agora:
desta nova vida
sem lugar e hora;
desta luz querida
onde hoje ardo;

eu te falo um pouco.
Teu trabalho é belo,
teu esforço é nobre;
eu porém apelo:
tanto não se cobre,
nem se faça rouco,

use de mais calma.
Tudo tem seu tempo,
nada vem à toa;
não insista além, pois
toda ação ecoa
dentro de tu'alma,

meu querido mano.
Não se martirize,
se o que não entende
taxa como crise
o que d'arte pende;
mais um tolo engano

dos que há na Terra.
Mais importa a lenda
do criar infindo;
mais importa a senda
que procura o lindo,
e que nunca erra

se houver carinho.
O amor é guia,
tua fé é base;
ama e confia,
pois tudo é fase
neste teu caminho

em busca do certo.
Muito obrigado
pelo teu talento,
pelo abraço dado
com o pensamento.
Teu irmão.


Comentário em 14/10/2010:
Lembro-me vagamente. Eu estava na casa do Ricardo Movits, Cristina estava comigo. Não lembro o que conversávamos. Em dado momento, pedi a ele papel e caneta. Com certa urgência, eu diria. E escrevi. Obs: o nome do irmão então já falecido do Ricardo era Roberto.
Dois dias depois, o Ricardo responde:


Caro irmão Roberto,
Muito te agradeço
Pela inspiração;
Por esse começo
Da nova missão.
Sei que estás por perto

E por isso eu digo:
Tua luz me guia
Na minha loucura;
Rimas na poesia,
Cores na pintura;
Marcas do amigo

Que tanto te ama.
Tento registrar
Todo sentimento;
Sempre te beijar
Através do vento,
Que soprando chama

E me diz no ouvido:
Siga a busca eterna
Através da arte,
Do céu à caverna
Encontre a parte
De um mundo perdido

Nas separações.
Entre o não e o sim
Fico equilibrado,
Mas dentro de mim
Sei que estou errado,
Nas limitações

De uma idéia pura.
Pois a união
É universal.
Entre o sim e o não
Existe o real;
Parte da aventura

Que comigo guardo.
Conto com a beleza
Transmutada em paz,
Conto com a certeza
De ser sempre capaz.
Teu irmão.


Ricardo Movits
19 - 08 - 1990

segunda-feira, 2 de abril de 1990

Tema do chapéu

Você pode pegar o chapéu que quiser
Você pode pegar o chapéu que quiser
Mas cuidado, olhe bem, pense bem o que é que você vai fazer
Você pode pegar qualquer um
Fica bom, fica não, fica bom, fica não,
Veja bem o chapéu que você vai pegar
Fica bom, fica não, fica bom, fica não,
Você pode pegar o chapéu que quiser
A escolha é sua, errada ou certa, você é que faz
Você pega o chapéu que quiser.


Composta (música e letra) no Rio de Janeiro para a peça teatral "Em quem cabe o chapéu?", criação coletiva do grupo "Conta que Faz de Conta", direção Marco Polo.

Lobos

A garota não tem saída,
A garota vai ser comida
E ninguém vai vir pra salvar!
Sou esperto e bem malandro,
Ninguém foge do meu abraço,
Eu seduzo, engano e caço.
A garota lá vem cantando
E nem sabe que vou atacar.

Que menina engraçadinha,
Que passeia assim sozinha,
Distraída e sem me ver!
A floresta é tão bonita,
Aqui mora a Natureza,
Verde ver e rever beleza,
Vem o vento e o verde agita...
(O que é mesmo que eu ia fazer?)

Acontece que eu sou um lobo
E não posso bancar o bobo,
A menina eu vou comer.
Isto aqui é uma floresta,
Lobo come menina viva,
Eu não tenho alternativa,
Me desculpem, mas só me resta
Direitinho cumprir meu dever.

Pode entrar, a floresta é bela,
O caminho é melhor por ela
E eu estou aqui pra ajudar!
Posso te proteger de tudo,
Pois conheço os mil perigos,
Todos bichos são meus amigos,
Eu serei aqui seu escudo!
(Mas depois eu vou te devorar!)


Composta (música e letra) no Rio de Janeiro para a peça teatral "Em quem cabe o chapéu?", criação coletiva do grupo "Conta que Faz de Conta", direção Marco Polo.

sexta-feira, 30 de março de 1990

Chapéus

Nós somos os chapéus
Que cabem em você
Você pensa e diz que não, não, não
Você pensa e diz que sim, sim, sim

Eu sou uma menina
Que não responde ninguém mal
Eu sei ouvir conselhos
Eu me comporto e sou legal.

Eu sou uma gatinha
Bem bronzeada e atual
Eu tô sempre na praia
Sou gostosinha, sou fatal.

Nós somos os chapéus...

Eu sou uma menina
Que é bem mais do que tú és
Não posso perder tempo
Não gosto de sujar os pés.

Eu sou uma criança
Que sempre cumpre os seus papéis
Não posso andar sozinha
E volto sempre antes das dez.

Nós somos os chapéus...

Eu sou uma menina
Que vive a vida a sorrir
O mundo é tão belo
Felicidade está aqui.

Eu sou tão indecisa
Que nunca sei por onde ir
São tantos os caminhos
Eu não consigo decidir.

Nós somos os chapéus...


Composta (música e letra) no Rio de Janeiro para a peça teatral "Em quem cabe o chapéu?", criação coletiva do grupo "Conta que Faz de Conta", direção Marco Polo.

quinta-feira, 20 de outubro de 1988

Querida maninha:

É difícil começar esta carta, pois não existem muitas palavras na língua humana pra dizer seja o que for. Outro ano passa, e a vontade é te olhar, sorrir, e te dar um abraço. As palavras, mais que desnecessárias, são inúteis. Estamos caminhando juntos - nós e todas as pessoas que nos cercam. Pouca diferença faz quem caminhou mais ou quem entrou na estrada primeiro. O tempo é psicológico, abstrato, e sua faceta mais importante chama-se oportunidade. Esta, sim, deve ser comemorada. Por ela faz sentido seus amigos alegrarem-se e te dizerem: parabéns! Mais uma oportunidade bem aproveitada; felicidades te desejamos em mais uma prova que surge! E continuamos, todos, caminhando juntos, aniversariando diariamente, vivendo anos em cada segundo bem vivido, e crescendo largamente em cada proveito para os outros que tiramos de nossas próprias experiências. Viver é se expandir, tentar é aprender, acertar é se vencer! E que Deus aceite nosso agradecimento pela dimensão tempo, que nos permite avançar e repetir se for preciso.

Feliz aniversário para todos nós, para todos aqueles que começaram mais um dia, para todos os que deram mais um passo. Viva a vida!

Um beijo!

Flávio

(carta enviada à minha amiga Adriana, de Belo Horizonte)

sexta-feira, 20 de maio de 1988

Peito moleque

Nesse meu peito moleque
Escondido tenho um leque
De aventuras colossais
Minha pele é quase "black"
Sou zagueiro e sou beque
E muito mais

Quando o samba vira breque
Reco-reco reco-reque
Pois é tudo carnaval
E sem mais salamaleque
Beijo o copo e a mulher, que
Eu sou normal

Mas você fica tristonha
Molha e salga sua fronha
Diz que tá tudo ruim
Se viajo a serviço
Me acusa de sumiço
E - ai de mim!

Meu amor, por mais que eu peque
Seu olhar me dá um xeque
E eu volto à razão
Diga ao seu pranto que seque
Que, no fundo, o meu pileque
É de paixão.


Composta (letra e música) em João Pessoa/PB, para o sambista João Nogueira, durante turnê que fiz com ele pelo país.

domingo, 16 de agosto de 1987

Anjo elétrico

Alma que toca minh'alma
Vazão de enérgico ímã
Página iluminada
No livro da minha rotina

Face do meu lado sonho
Razão do meu sono tranquilo
Anjo elétrico lindo
Gerando mil quilos de luz (!)

Beijo que sinto sem toque
Tensão que se torna agradável
Pérola viva no peito
Paixão que é quase palpável.