quinta-feira, 20 de outubro de 1988

Querida maninha:

É difícil começar esta carta, pois não existem muitas palavras na língua humana pra dizer seja o que for. Outro ano passa, e a vontade é te olhar, sorrir, e te dar um abraço. As palavras, mais que desnecessárias, são inúteis. Estamos caminhando juntos - nós e todas as pessoas que nos cercam. Pouca diferença faz quem caminhou mais ou quem entrou na estrada primeiro. O tempo é psicológico, abstrato, e sua faceta mais importante chama-se oportunidade. Esta, sim, deve ser comemorada. Por ela faz sentido seus amigos alegrarem-se e te dizerem: parabéns! Mais uma oportunidade bem aproveitada; felicidades te desejamos em mais uma prova que surge! E continuamos, todos, caminhando juntos, aniversariando diariamente, vivendo anos em cada segundo bem vivido, e crescendo largamente em cada proveito para os outros que tiramos de nossas próprias experiências. Viver é se expandir, tentar é aprender, acertar é se vencer! E que Deus aceite nosso agradecimento pela dimensão tempo, que nos permite avançar e repetir se for preciso.

Feliz aniversário para todos nós, para todos aqueles que começaram mais um dia, para todos os que deram mais um passo. Viva a vida!

Um beijo!

Flávio

(carta enviada à minha amiga Adriana, de Belo Horizonte)

sexta-feira, 20 de maio de 1988

Peito moleque

Nesse meu peito moleque
Escondido tenho um leque
De aventuras colossais
Minha pele é quase "black"
Sou zagueiro e sou beque
E muito mais

Quando o samba vira breque
Reco-reco reco-reque
Pois é tudo carnaval
E sem mais salamaleque
Beijo o copo e a mulher, que
Eu sou normal

Mas você fica tristonha
Molha e salga sua fronha
Diz que tá tudo ruim
Se viajo a serviço
Me acusa de sumiço
E - ai de mim!

Meu amor, por mais que eu peque
Seu olhar me dá um xeque
E eu volto à razão
Diga ao seu pranto que seque
Que, no fundo, o meu pileque
É de paixão.


Composta (letra e música) em João Pessoa/PB, para o sambista João Nogueira, durante turnê que fiz com ele pelo país.

domingo, 16 de agosto de 1987

Anjo elétrico

Alma que toca minh'alma
Vazão de enérgico ímã
Página iluminada
No livro da minha rotina

Face do meu lado sonho
Razão do meu sono tranquilo
Anjo elétrico lindo
Gerando mil quilos de luz (!)

Beijo que sinto sem toque
Tensão que se torna agradável
Pérola viva no peito
Paixão que é quase palpável.

sexta-feira, 22 de maio de 1987

Rapto mútuo

São seis e meia, e já é noite caída.
Olho pra vida, doce murmúrio da aura,
e ela é cheia de corações, colorida,
como invadida de um afã que restaura.

Deito na cama, traço uma carta comprida;
de tão sentida, toca meu mais que profundo.
Meu eu te ama, linda, suave, florida,
minha querida, com todo o amor do meu mundo.

Nesses momentos, não sei se estou ao teu lado
por um translado de verdadeira viagem
- vai pelos ventos o perispírito alado -,

ou se vem cedo tua visita-imagem:
mais que miragem, um rapto mútuo amado;
mais que brinquedo, uma torrente sem margem!


Gravada no LP Luz do Ar, em dezembro/1989.

sábado, 18 de abril de 1987

Doce oscilação

Ar que passa leve e leva a dor
Perfume flutuante
Cidade do fundo interior
Relógio repousante

Sal que sinto gosto e gosto em ti
Abraço cativante
Silêncio que busco e quero ouvir
Acorde dominante

Tônica, terça e quinta
Sábado e domingo
Pingo de tinta, chuva e sol
Doce oscilação faz-me em redor

Bem que é impulso e pulsará
Estrela cintilante
Beleza, mistério que sempre existirá
Passagem dissonante

Tônica, terça e quinta
Sábado e domingo
Pingo de tinta, chuva e sol
Doce do, si, la, sol, fa, mi, re, do
Doce oscilação faz-me em redor
Doce do, si, la, sol, fa, mi, re, do


Composta (letra e música) em Belo Vale/MG.

sábado, 27 de dezembro de 1986

País dos anjos

Ontem, com certeza, passei a noite contigo. Acordei novamente com aquela sensação de ter voltado do país dos anjos, e a impressão de que seu rosto estava ali, ao meu lado, vigiando meu despertar.


Letra e música de Flávio Fonseca

domingo, 12 de outubro de 1986

Tanta, tanta

Tanta, tanta, tanta, tanta
Tanta assim
Eu nunca pensei que fosse
Ter em mim
Essa sensação
De alma e coração
Que me faz
Tão
Feliz
Cristo, eu quis paz
Eu, que nada fiz
E tive muito mais
E ainda bis:
Feliz
Demais!
Cristo, eu só quis paz
Tal quase a de Assis
Tal qual dos serviçais
E tive mais
Eu tive
Cris
Cristo, eu quis paz...
E me deste
Tanta, tanta, tanta, tanta
Tanta assim
Que mais do que isso
Só o céu sem fim
Essa imensidão
Essa emoção
Meus olhos
São
Quem diz.


Letra e música de Flávio Fonseca