sábado, 31 de janeiro de 1981

Xilingue

É Ouro Fino, Pouso Alegre, Jacutinga,
Muita gente, muita pinga,
Carnaval de interior.
É Christiane, Margareth e Celeste,
É a beleza do agreste
Que desperta este amor.

Borda da Mata, a cidade tão pertinho,
Mas o trem, devagarzinho,
Como custa a chegar!
É paisagem, correria, tira-foto,
A garota vai de moto
E só se vê ela passar.

É a Rosângela e Telma na esquina,
A gente foge das meninas
Pra depois morrer de rir.
A serenata na calçada, um segundo
E o melhor café do mundo
O Bar do Paulo vai servir.

É o piano esperando bem em frente,
E a Débora, contente,
Quer ouvir o violão.
E muita coisa que se guarda escondida,
Por exemplo: nossa ida
Pra lá de Monte Sião.


Composta (letra e música) em Ouro Fino/MG, durante férias com o amigo pianista e compositor Ronaldo Pellicano.

domingo, 23 de novembro de 1980

Sou capaz

Só um pouco de vento
Ou um monte de chuva
Seria capaz de trazer
De volta o claro da lua;
Porém, apenas a olhos vis.
Porquanto estou feliz
Vejo a lua por mais que se esconda.

Sou capaz
De atravessar tanta barreira,
Transpor tanto sereno,
Chegar tranquilo e pleno
Aonde tantos desistiram de chegar
E de lá gritar
Para que ouçam
Ao pé do ouvido
Que eu não duvido
Que possam me alcançar.


Letra e música de Flávio Fonseca & Ronaldo Pellicano.

sábado, 18 de outubro de 1980

Desafio

Quando começou
Eu era um menino - e ainda sou -
Criança inocente, sem saber
Sentir e distinguir amor de Amor,
Eu sempre me entregava pra valer
E às vezes demorava a perceber
Que para amar não basta um amor eterno.

Quando de você
O mesmo amor sincero eu vi nascer,
Até lutei pra não retribuir,
Mas quando dei por mim, já era seu,
E foi a sua vez de evitar,
Forçou-me pouco a pouco a entender
Que a estratégia deveria ser constante.

E eu fui
Descaminhando,
Escorregando,
Me segurando pra não ver você
E fui
Compenetrado,
Injustiçado,
Não conformado por não ver você,
Mas fui
Bem consciente,
Indiferente,
Tendo na mente que quero você.

Hoje, bem depois,
Menino sou apenas pra sorrir
E devo a você o que aprendi;
Te quero como nunca antes quis
E luto com maior convicção,
Pois sei que somos nós, em vez de dois,
Que juntos seguiremos, sempre lado a lado.

Hoje sei dizer
Que todo desafio deve ser
Um pouco de fatal e invulgar,
Pois só o amor se presta pra vencer
E nunca a gente deve esquecer
Que o próprio amor, por ser a condição,
Já é o maior de todos estes desafios.

E eu vou
Desconcentrando,
Aliviando,
Me alegrando com um beijo seu
E vou
Desmascarado,
Reconfortado,
Desenfreado a um beijo seu,
Mas vou
Onisciente,
Impaciente,
Convenientemente sendo seu.


Letra e música de Flávio Fonseca

quarta-feira, 1 de outubro de 1980

No canto direito de meu quarto há um móvel muito útil, de que me valho frequentemente. Feito de madeira nova - ainda sem rabiscos -, suporta alguns livros que não couberam na estante. Quando sento-me à sua frente, fico diante da janela; e escrevo olhando para o céu.

sexta-feira, 20 de junho de 1980

Fuga

Fuga
Meia volta e perco o rumo
Sem razão e sem desculpa
Vou andando sem saber
Pra que lado gira o sol
Fuga
Insensata e descabida
Incessante e dolorida
De quem sabe o que fazer
Mas já não sabe o que faz

Ah, amor, eu não consigo mais ser
Um pedaço de vida doída
Que já não é de nós
Que já não é vivida
Que já não é de nós
Que já não tem sentido.

Fuga
Meia volta e vou sofrendo
Sem adeus e sem motivo
Como quem vai sem querer
Porque não sabe ficar
Fuga
Insensata e insane
Por amor e por loucura
Como quem apenas vai
Mas já não sabe onde vai.


Letra e música de Flávio Fonseca

sábado, 7 de junho de 1980

Os oito sentidos

Ouvir tua voz me alimenta
Saber tuas palavras me mantém aceso
Olhar teu olhar me incendeia
Sentir teu pensamento me mantém alerta

E esta força me faz recordar
E esta força me faz suportar

Provar tua boca me mata
Amar o teu sorriso me mantém vivendo
Cheirar o teu ar me estontece
Tocar os teus cabelos me mantém contigo

E esta força me faz levantar
E esta força me faz retentar

Amar tua voz me incendeia
Ouvir tuas palavras me mantém alerta
Tocar teu olhar me estontece
Saber teu pensamento me mantém contigo

E esta força me faz procurar
E esta força me faz rebentar

Olhar tua boca me salva
Provar o teu sorriso me mantém aceso
Sentir o teu ar me alimenta
Cheirar os teus cabelos me mantém vivendo

E esta força me faz renegar
E esta força me faz te encontrar.


Letra e música de Flávio Fonseca

sábado, 23 de fevereiro de 1980

Vê se entende

Ei, eu te quero, mas sou cauteloso.
Eu te preciso, mas eu te espero.
Eu te adoro, mas eu sou mais eu.
Estou a teu lado, mas nem me dou conta.
Sei que te tenho, mas nem me interesso.
Tu vens comigo, mas deixas-me tonto.
Tanto me beijas, mas já não aguento.
Quero-te perto, mas eu não repito.
Vê se entende, pois, ei, eu te quero!
Sou cauteloso, pois eu te preciso!
Eu te espero, pois eu te adoro!
Eu sou mais eu, pois estou a teu lado!
Nem me dou conta, pois sei que te tenho!
Nem me interesso, pois tu vens comigo!
Deixas-me tonto, pois tanto me beijas!
Já não aguento, pois quero-te perto!
Eu não repito, pois, vê se entende!


Letra e música de Flávio Fonseca