Uma pessoa com auto-confiança e que pratica a auto-aprovação é muito poderosa. Uma pessoa que faça sempre a coisa certa, conforme a lei de Deus, também é muito poderosa. Aquele que faz as duas coisas... este é invencível.
Há os que passam a vida se esforçando para agir da maneira certa, e até conseguem. Porém se não chegam a acreditar em si, dependendo de onde estão vindo, caminharam bastante, mas ainda tem muito o que evoluir. Ainda não usam a incrível força da vontade.
Por outro lado, pouco adianta dominar a mente, ter auto-estima, e ir na direção errada. Mais cedo ou mais tarde será levado à estrada correta. Provavelmente com dor.
Um Francisco Bernardone não teria tanta força se, além da religiosidade da mãe, não tivesse herdado a coragem, impetuosidade e firmeza do pai. Só tamanha positividade o levaria a tirar a roupa em público, enfrentar tão frontalmente toda a sociedade da época, e transformar o mundo.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
sábado, 5 de março de 2011
O assassinato do abacateiro
Era uma árvore linda, frondosa, robusta e saudável. Tinha uma irmã menor, plantada na mesma cova e que crescera quase colada a ela, um pé de cajá. Todos os dias, além da passarinhada alvoroçada, era visitada por micos que iam ali para brincar e buscar alimento, bagunceiros e donos de um gritinho agudo que já virara marca sonora na vizinhança.
Quando nos mudamos para a rua, a árvore foi uma das primeiras a nos dar as boas vindas. Carregadinha de abacates, chamou a atenção dos homens da mudança, que, após levarem os móveis para dentro, manobraram o caminhão para debaixo de seus galhos, subiram na caçamba, usaram um cabo de vassoura para cutucá-los e foram embora cheios de frutos saborosos.
A rua a amava. Como estava na calçada, pertencia a todos, e a todos servia sua sombra, sua música tocada ao vento, seus abacates.
* * *
Há poucos dias a casa bem em frente à arvore foi vendida. Os novos donos, inexplicavelmente, acharam que eram donos também do enorme vegetal, e que tinham o direito de dispor livremente de sua vida. Não se importaram que ele estivesse completamente indefeso, passivo, submisso, embora isento de qualquer sentimento de vingança.
Quando a serra elétrica começou seu trabalho, achei que era apenas um rápido serviço de poda. Talvez estivessem preocupados com os carros que estacionavam rente ao meio-fio, que eventualmente poderiam receber uma chuva de abacates. Talvez os galhos estivessem danificando a fiação elétrica. Aguardei, inconformado mesmo assim: em que outro planeta além do nosso um fio elétrico é mais importante que uma vida que levou décadas para se fortalecer e consolidar? Não seria mais simples, rápido, barato, ecológico, humano, só passar os fios por outro lugar, dando uma pequena volta, se preciso?
Mas o problema não eram os fios. Chegaram os músicos do meu grupo e iniciamos o ensaio ao som da serra elétrica. Quando percebi, já não havia mais nenhum galho com folhas. Nem frutos. A vizinha do lado - única com coragem e iniciativa para enfrentar pessoalmente o atacante - tentava em vão impedir o crime. Mas não havia mais o que defender. O tronco já estava com as entranhas à mostra, sem esperança de recuperação. Nem a cajazeira havia sido poupada. A ignorância tinha vencido.
* * *
A natureza não se vinga. Apenas reage de modo reflexo, assim como a água do rio se desvia das pedras. E a vida sempre encontra caminho em outro lugar.
Aqueles vizinhos agora não terão mais sombra em seu quintal, e ficarão expostos ao sol da tarde, inclemente sobre o seu telhado de zinco. Nem sombra na calçada, que substituiria a falta de garagem. Não terão mais frutos, nutritivos, gostosos e gratuitos. Não terão mais privacidade, pois suas janelas agora estão abertas aos olhares de meia dúzia de casas próximas. Não terão a companhia de animais inofensivos e amigos, atraídos por sua bela copa. Não terão um brinquedo e um exercício físico divertido para os filhos, que poderiam grimpá-la e balançar-se pendurados. Não terão o som relaxante do vento criando corredeira entre suas folhas. Não terão a energia vigorosa da vida vegetal a se irradiar e influenciar a nossa vida animal.
Procuro o lado positivo das coisas, e vejo que agora tenho mais luz, e minha vista alcança um pouco mais longe. Mas o canto dos passarinhos está distante, e ainda não voltei a ouvir o chamado agudo dos miquinhos.
Quando nos mudamos para a rua, a árvore foi uma das primeiras a nos dar as boas vindas. Carregadinha de abacates, chamou a atenção dos homens da mudança, que, após levarem os móveis para dentro, manobraram o caminhão para debaixo de seus galhos, subiram na caçamba, usaram um cabo de vassoura para cutucá-los e foram embora cheios de frutos saborosos.
A rua a amava. Como estava na calçada, pertencia a todos, e a todos servia sua sombra, sua música tocada ao vento, seus abacates.
* * *
Há poucos dias a casa bem em frente à arvore foi vendida. Os novos donos, inexplicavelmente, acharam que eram donos também do enorme vegetal, e que tinham o direito de dispor livremente de sua vida. Não se importaram que ele estivesse completamente indefeso, passivo, submisso, embora isento de qualquer sentimento de vingança.
Quando a serra elétrica começou seu trabalho, achei que era apenas um rápido serviço de poda. Talvez estivessem preocupados com os carros que estacionavam rente ao meio-fio, que eventualmente poderiam receber uma chuva de abacates. Talvez os galhos estivessem danificando a fiação elétrica. Aguardei, inconformado mesmo assim: em que outro planeta além do nosso um fio elétrico é mais importante que uma vida que levou décadas para se fortalecer e consolidar? Não seria mais simples, rápido, barato, ecológico, humano, só passar os fios por outro lugar, dando uma pequena volta, se preciso?
Mas o problema não eram os fios. Chegaram os músicos do meu grupo e iniciamos o ensaio ao som da serra elétrica. Quando percebi, já não havia mais nenhum galho com folhas. Nem frutos. A vizinha do lado - única com coragem e iniciativa para enfrentar pessoalmente o atacante - tentava em vão impedir o crime. Mas não havia mais o que defender. O tronco já estava com as entranhas à mostra, sem esperança de recuperação. Nem a cajazeira havia sido poupada. A ignorância tinha vencido.
* * *
A natureza não se vinga. Apenas reage de modo reflexo, assim como a água do rio se desvia das pedras. E a vida sempre encontra caminho em outro lugar.
Aqueles vizinhos agora não terão mais sombra em seu quintal, e ficarão expostos ao sol da tarde, inclemente sobre o seu telhado de zinco. Nem sombra na calçada, que substituiria a falta de garagem. Não terão mais frutos, nutritivos, gostosos e gratuitos. Não terão mais privacidade, pois suas janelas agora estão abertas aos olhares de meia dúzia de casas próximas. Não terão a companhia de animais inofensivos e amigos, atraídos por sua bela copa. Não terão um brinquedo e um exercício físico divertido para os filhos, que poderiam grimpá-la e balançar-se pendurados. Não terão o som relaxante do vento criando corredeira entre suas folhas. Não terão a energia vigorosa da vida vegetal a se irradiar e influenciar a nossa vida animal.
Procuro o lado positivo das coisas, e vejo que agora tenho mais luz, e minha vista alcança um pouco mais longe. Mas o canto dos passarinhos está distante, e ainda não voltei a ouvir o chamado agudo dos miquinhos.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Feliz encontro de culturas
Último dia do ano, início de tarde. Estávamos sem nada para fazer. Não tinha sido possível viajar, e, infelizmente, já não havia mais vaga em nenhum restaurante ou clube que fosse suficientemente tranquilo para nos agradar. Íamos passar a virada de ano em casa, desta vez.
Chamamos meu cunhado com a família, e também meus sogros. Estávamos todos sem programa, então resolvemos alugar uns filmes para passar o tempo juntos.
Enquanto eles não chegavam, saí com minha esposa e minha filha para ir até a locadora e para comprar umas esfihas, que, após breve troca de ideias, tinha sido o cardápio escolhido para a “ceia”.
Obviamente, a maior parte do comércio estava fechada, principalmente onde morávamos, distante do centro. Mas num pequeno shopping perto de casa havia um restaurante egípcio, ao qual nunca tínhamos ido. Resolvemos dar um pulo lá, e da rua vimos que ainda estava aberto.
Qual não foi nossa surpresa, quando percebemos que eles estavam preparando o ambiente para o réveillon! Demos uma olhada na decoração, no cardápio – bem melhor que esfihas! –, e aproximamo-nos de uma mocinha que trabalhava:
– Vocês vão ficar abertos à noite?
– Vamos, sim – respondeu ela, cortesmente.
– E ainda tem vaga para mais uma família? Somos... – calculei rapidamente – oito pessoas.
– Temos vaga, sim!
Puxa, que achado! Um lugar tranquilo, original, aprazível... confirmamos o preço, e logo mudamos nossos planos. Telefonamos para os parentes, e fomos para casa nos arrumar.
* * *
Quando chegamos, ainda estava vazio, embora os proprietários já estivessem em plena animação. Receberam-nos carinhosamente, levaram-nos à mesa, e colocaram o bufê à disposição.
Tudo era autenticamente egípcio: a comida, a música, a arrumação das mesas, o figurino dos donos... nunca tomei algo mais gostoso que o suco de uva com água de rosas. Ofereceram-nos o narguilé, rindo de nossa desconfiança. Garantiram que a erva era legal, e alguns de nós, mesmo sem nunca ter fumado, experimentaram.
Não satisfeitos, trouxeram-nos adereços para nos enfeitar. Meu sobrinho sentiu-se poderoso portando um pschent, o toucado dos faraós. As mulheres divertiram-se com véus, pulseiras, colares.
Visivelmente não queriam nos deixar isolados. A hospitalidade era encantadora, mas conforme a hora avançava e notávamos que não chegava mais ninguém, começamos a ficar constrangidos.
Em determinado momento, aproveitei que uma das moças passou perto de nossa mesa, chamei-a, e fui direto:
– Quando viemos aqui à tarde nos disseram que o restaurante estaria aberto, mas... esta é a festa particular de vocês, não é?
Ela abriu um imenso e simpático sorriso, e disse algo equivalente a isto:
– Mas somos todos uma família só, não somos?
É evidente que não existe no mundo uma resposta adequada a isto. Fiquei calado, sorrindo também.
Quando a meia-noite aproximou-se, convidaram-nos a sair para ver os fogos. Mais que isso: levaram as crianças à cobertura do shopping, para ver melhor. Ainda hoje trago na retina a imagem de minha esposa abraçada à filha do dono do estabelecimento, olhando para o céu.
Atualmente o restaurante não existe mais naquele lugar, nem nós moramos lá perto. Perdemos contato por alguns anos, até que minha esposa e eu reencontramos a moça egípcia numa grande feira de artesanato, expondo arte típica de seu país. No meio do burburinho, trocaram novidades, e-mails e promessas de novos encontros.
Pode ser que novos reencontros aconteçam, ou não. Não importa tanto. Ficou
a certeza de uma sincera ligação nascida naquela noite, e a sensação de uma emoção vagamente lembrada, como ao acordar de um sonho bom.
Chamamos meu cunhado com a família, e também meus sogros. Estávamos todos sem programa, então resolvemos alugar uns filmes para passar o tempo juntos.
Enquanto eles não chegavam, saí com minha esposa e minha filha para ir até a locadora e para comprar umas esfihas, que, após breve troca de ideias, tinha sido o cardápio escolhido para a “ceia”.
Obviamente, a maior parte do comércio estava fechada, principalmente onde morávamos, distante do centro. Mas num pequeno shopping perto de casa havia um restaurante egípcio, ao qual nunca tínhamos ido. Resolvemos dar um pulo lá, e da rua vimos que ainda estava aberto.
Qual não foi nossa surpresa, quando percebemos que eles estavam preparando o ambiente para o réveillon! Demos uma olhada na decoração, no cardápio – bem melhor que esfihas! –, e aproximamo-nos de uma mocinha que trabalhava:
– Vocês vão ficar abertos à noite?
– Vamos, sim – respondeu ela, cortesmente.
– E ainda tem vaga para mais uma família? Somos... – calculei rapidamente – oito pessoas.
– Temos vaga, sim!
Puxa, que achado! Um lugar tranquilo, original, aprazível... confirmamos o preço, e logo mudamos nossos planos. Telefonamos para os parentes, e fomos para casa nos arrumar.
* * *
Quando chegamos, ainda estava vazio, embora os proprietários já estivessem em plena animação. Receberam-nos carinhosamente, levaram-nos à mesa, e colocaram o bufê à disposição.
Tudo era autenticamente egípcio: a comida, a música, a arrumação das mesas, o figurino dos donos... nunca tomei algo mais gostoso que o suco de uva com água de rosas. Ofereceram-nos o narguilé, rindo de nossa desconfiança. Garantiram que a erva era legal, e alguns de nós, mesmo sem nunca ter fumado, experimentaram.
Não satisfeitos, trouxeram-nos adereços para nos enfeitar. Meu sobrinho sentiu-se poderoso portando um pschent, o toucado dos faraós. As mulheres divertiram-se com véus, pulseiras, colares.
Visivelmente não queriam nos deixar isolados. A hospitalidade era encantadora, mas conforme a hora avançava e notávamos que não chegava mais ninguém, começamos a ficar constrangidos.
Em determinado momento, aproveitei que uma das moças passou perto de nossa mesa, chamei-a, e fui direto:
– Quando viemos aqui à tarde nos disseram que o restaurante estaria aberto, mas... esta é a festa particular de vocês, não é?
Ela abriu um imenso e simpático sorriso, e disse algo equivalente a isto:
– Mas somos todos uma família só, não somos?
É evidente que não existe no mundo uma resposta adequada a isto. Fiquei calado, sorrindo também.
Quando a meia-noite aproximou-se, convidaram-nos a sair para ver os fogos. Mais que isso: levaram as crianças à cobertura do shopping, para ver melhor. Ainda hoje trago na retina a imagem de minha esposa abraçada à filha do dono do estabelecimento, olhando para o céu.
Atualmente o restaurante não existe mais naquele lugar, nem nós moramos lá perto. Perdemos contato por alguns anos, até que minha esposa e eu reencontramos a moça egípcia numa grande feira de artesanato, expondo arte típica de seu país. No meio do burburinho, trocaram novidades, e-mails e promessas de novos encontros.
Pode ser que novos reencontros aconteçam, ou não. Não importa tanto. Ficou
a certeza de uma sincera ligação nascida naquela noite, e a sensação de uma emoção vagamente lembrada, como ao acordar de um sonho bom.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
A verdadeira cultura musical
Ter cultura musical é conhecer. De tudo. Ou, pelo menos, do máximo possível. É poder participar de qualquer roda de conversa, tendo o que falar. Saber opinar, embasado em fatos. E, para isto, ouvir de tudo. O que é feito no Brasil e o que vem do exterior. O que foi composto há séculos, e o que está sendo criado hoje. O que tem influência urbana, e o que tem cheiro rural. Qualquer gênero, qualquer estilo. Qualquer qualidade.
É claro que não estou falando de gosto. As preferências são pessoais e indiscutíveis. Mas se ficarmos restritos apenas ao que gostamos, não ampliaremos nossos horizontes, não compreenderemos o motivo que faz os outros gostarem, não conheceremos, não teremos cultura musical. Pois o gosto está ligado a conceitos subjetivos, como educação, meio ambiente, valores afetivos... sim, também à qualidade. Mas mesmo esta não é objetiva, não pode ser ligada a este ou aquele tipo de música. Em qualquer categoria há coisas bem feitas e mal feitas. E, se faz sucesso, algo de bom tem que ter. Pode ser um elemento da própria música, como a melodia ou a harmonia, mas pode ser a produção de estúdio ou de palco, o cenário, iluminação ou figurino, o material gráfico, o marketing... e de tudo se pode aprender. Pra conhecer mais.
E saber reconhecer esses elementos. Saber o que é harmonia, melodia, ritmo, saber identificar um instrumento solista ou aquele que faz um contraponto. Entender o que é um contraponto. O que é compasso. Agudo, grave, timbre, rallentando... É claro que podemos ter prazer em ouvir música sem conscientizar nada disso. Mas estamos falando de cultura musical. E, analogicamente, o prazer de ver uma pintura é maior quando reconhecemos a técnica, o período, o contexto.
Música também é uma pintura. Nossas cores, linhas, formas, luzes e sombras são as notas, os parâmetros, o sincronismo (ou não), a fonte sonora. Numa palavra, o som. E nossa tela é o tempo.
Popular ou clássico? Que diferença faz? Tudo se resume a combinação de sons sobre uma tela de tempo. Os elementos usados são os mesmos. Podemos ter uma sinfônica tocando rock progressivo ou um sambista cantando barroco. É música.
O primeiro passo para atingirmos a verdadeira cultura musical é abandonar os estereótipos e abrir a mente para todas as manifestações musicais do mundo. Depois disso nosso gosto pode até mudar - mas, provavelmente, não, pois as crenças arraigadas ao subconsciente são mais fortes. Mas, pelo menos, viveremos um processo maravilhoso, ao fim do qual estaremos musicalmente mais cultos.
É, isso resume tudo: ter cultura musical é combater o preconceito. O nosso próprio.
(Publicado no jornal Tagualetras, de Novembro/2010)
É claro que não estou falando de gosto. As preferências são pessoais e indiscutíveis. Mas se ficarmos restritos apenas ao que gostamos, não ampliaremos nossos horizontes, não compreenderemos o motivo que faz os outros gostarem, não conheceremos, não teremos cultura musical. Pois o gosto está ligado a conceitos subjetivos, como educação, meio ambiente, valores afetivos... sim, também à qualidade. Mas mesmo esta não é objetiva, não pode ser ligada a este ou aquele tipo de música. Em qualquer categoria há coisas bem feitas e mal feitas. E, se faz sucesso, algo de bom tem que ter. Pode ser um elemento da própria música, como a melodia ou a harmonia, mas pode ser a produção de estúdio ou de palco, o cenário, iluminação ou figurino, o material gráfico, o marketing... e de tudo se pode aprender. Pra conhecer mais.
E saber reconhecer esses elementos. Saber o que é harmonia, melodia, ritmo, saber identificar um instrumento solista ou aquele que faz um contraponto. Entender o que é um contraponto. O que é compasso. Agudo, grave, timbre, rallentando... É claro que podemos ter prazer em ouvir música sem conscientizar nada disso. Mas estamos falando de cultura musical. E, analogicamente, o prazer de ver uma pintura é maior quando reconhecemos a técnica, o período, o contexto.
Música também é uma pintura. Nossas cores, linhas, formas, luzes e sombras são as notas, os parâmetros, o sincronismo (ou não), a fonte sonora. Numa palavra, o som. E nossa tela é o tempo.
Popular ou clássico? Que diferença faz? Tudo se resume a combinação de sons sobre uma tela de tempo. Os elementos usados são os mesmos. Podemos ter uma sinfônica tocando rock progressivo ou um sambista cantando barroco. É música.
O primeiro passo para atingirmos a verdadeira cultura musical é abandonar os estereótipos e abrir a mente para todas as manifestações musicais do mundo. Depois disso nosso gosto pode até mudar - mas, provavelmente, não, pois as crenças arraigadas ao subconsciente são mais fortes. Mas, pelo menos, viveremos um processo maravilhoso, ao fim do qual estaremos musicalmente mais cultos.
É, isso resume tudo: ter cultura musical é combater o preconceito. O nosso próprio.
(Publicado no jornal Tagualetras, de Novembro/2010)
sábado, 9 de outubro de 2010
Espiritualidade na ficção científica brasileira
Que o cinema nacional tem passado por uma fase espiritualista todo mundo já notou.
Mas isso me fez pensar numa coisa: todos os livros de ficção científica brasileira que já caíram nas minhas mãos tinham algo mais além da aventura e das conjecturas científicas. Pode não ser regra geral, estou falando apenas do que li, mas mesmo assim é intrigante.
Lembro-me vividamente de um volume de contos que li na adolescência, de uma autora chamada Zora Seljam. O nome do livro já me fugiu, mas cheguei a trocar alguma correspondência com a escritora - naquela época, por carta. Conheci-a pessoalmente numa noite de autógrafos, em Brasília, mas ela residia, se não me engano, nos EUA. E aquele livro me abriu a porta para um gênero "fusion". Ficção científica? Poesia em prosa? Poderia dizer que Ray Bradbury também tem um tom poético, mas sem a brasilidade de Zora.
Depois, lembro de ter lido um romance no qual o protagonista ficava congelado por alguns séculos e finalmente acordava em uma sociedade moralmente mais evoluída. Infelizmente, deste não lembro nem o título nem o autor. Marcou-me apenas que foi indicado pelo meu tio Nelson Pereira de Souza, pois na tal sociedade futura todos falavam esperanto.
E atualmente estou lendo O Espaço Inexplorado, de Ricardo Guilherme. É uma trilogia agora publicada em um só volume. Muito interessante, num ritmo de contador de histórias, sem muitos desvios para descrição de ambientes ou personagens. A filosofia intrínseca vai brotando com naturalidade, sem proselitismo ou pieguice. Alguns leitores materialistas podem até discordar das crenças usadas como pano de fundo, achá-las ingênuas, mas a trama, ágil, é bem escrita. Pode não se comparar aos grandes mestres da FC, como Isaac Asimov ou Arthur Clarke, mas estou gostando bastante de ler. Ah, e tem também uma menção ao esperanto...
Adendo em 12/10/2010:
Depois que postei o texto acima, fiz uma rápida pesquisa na rede e descobri que o livro da Zora Seljam que me marcou chama-se Contos do Amanhã; e que ela faleceu em abril de 2006...
Onde ela estiver, que receba minha gratidão pela influência benéfica no meu gosto por literatura, e por assim ter de alguma maneira participado da formação da minha personalidade ainda adolescente.
Mas isso me fez pensar numa coisa: todos os livros de ficção científica brasileira que já caíram nas minhas mãos tinham algo mais além da aventura e das conjecturas científicas. Pode não ser regra geral, estou falando apenas do que li, mas mesmo assim é intrigante.
Lembro-me vividamente de um volume de contos que li na adolescência, de uma autora chamada Zora Seljam. O nome do livro já me fugiu, mas cheguei a trocar alguma correspondência com a escritora - naquela época, por carta. Conheci-a pessoalmente numa noite de autógrafos, em Brasília, mas ela residia, se não me engano, nos EUA. E aquele livro me abriu a porta para um gênero "fusion". Ficção científica? Poesia em prosa? Poderia dizer que Ray Bradbury também tem um tom poético, mas sem a brasilidade de Zora.
Depois, lembro de ter lido um romance no qual o protagonista ficava congelado por alguns séculos e finalmente acordava em uma sociedade moralmente mais evoluída. Infelizmente, deste não lembro nem o título nem o autor. Marcou-me apenas que foi indicado pelo meu tio Nelson Pereira de Souza, pois na tal sociedade futura todos falavam esperanto.
E atualmente estou lendo O Espaço Inexplorado, de Ricardo Guilherme. É uma trilogia agora publicada em um só volume. Muito interessante, num ritmo de contador de histórias, sem muitos desvios para descrição de ambientes ou personagens. A filosofia intrínseca vai brotando com naturalidade, sem proselitismo ou pieguice. Alguns leitores materialistas podem até discordar das crenças usadas como pano de fundo, achá-las ingênuas, mas a trama, ágil, é bem escrita. Pode não se comparar aos grandes mestres da FC, como Isaac Asimov ou Arthur Clarke, mas estou gostando bastante de ler. Ah, e tem também uma menção ao esperanto...
Adendo em 12/10/2010:
Depois que postei o texto acima, fiz uma rápida pesquisa na rede e descobri que o livro da Zora Seljam que me marcou chama-se Contos do Amanhã; e que ela faleceu em abril de 2006...
Onde ela estiver, que receba minha gratidão pela influência benéfica no meu gosto por literatura, e por assim ter de alguma maneira participado da formação da minha personalidade ainda adolescente.
sábado, 18 de janeiro de 2003
Mil momentos
Quando o sol
Se recolhe pra lá do horizonte
Quase sempre esquece pra trás
Alguns raios de luz e calor
E assim
Por alguns preciosos instantes
Todo o céu se enfeita ainda mais
Se cobrindo de lindo rubor
E uma festa se instala no firmamento
Mas é uma festa triste
Até as nuvens sabem que é o fim do dia
E a alegria
Só resiste
Enquanto a lua brilha seu lamento
Se você
Se recolhe pra lá dos meus olhos
Quase sempre esquece em mim
Alguns raios do mais puro amor
E então
Por alguns dolorosos anseios
Todo o meu coração quer um sim
Contraindo um imenso torpor
E uma festa se espalha no pensamento
Mas é uma festa triste
Até meu corpo sabe que você é tudo
E a paz, contudo
Só insiste
Pois a lembrança dura mil momentos.
Letra e música de Flávio Fonseca
Se recolhe pra lá do horizonte
Quase sempre esquece pra trás
Alguns raios de luz e calor
E assim
Por alguns preciosos instantes
Todo o céu se enfeita ainda mais
Se cobrindo de lindo rubor
E uma festa se instala no firmamento
Mas é uma festa triste
Até as nuvens sabem que é o fim do dia
E a alegria
Só resiste
Enquanto a lua brilha seu lamento
Se você
Se recolhe pra lá dos meus olhos
Quase sempre esquece em mim
Alguns raios do mais puro amor
E então
Por alguns dolorosos anseios
Todo o meu coração quer um sim
Contraindo um imenso torpor
E uma festa se espalha no pensamento
Mas é uma festa triste
Até meu corpo sabe que você é tudo
E a paz, contudo
Só insiste
Pois a lembrança dura mil momentos.
Letra e música de Flávio Fonseca
sexta-feira, 19 de maio de 2000
Os mesmos
Eu venho, eu volto,
Eu volto e me vou,
E nesse vai-e-vem
Sempre contigo eu estou.
Às vezes estou lá e você fica aqui
E outras vezes fico e você vai pra lá.
O bom é quando juntos rimos por ali
Ou uma vida inteira nós passamos cá.
Às vezes a penumbra nos faz hesitar
E outras vezes tudo é claro como a paz,
Mas, conscientemente ou sem vislumbrar,
Sentimos que o sentido é viver demais.
Eu venho, eu volto,
Eu volto e me vou,
E nesse vai-e-vem
Sempre contigo eu estou.
Às vezes sou seu filho, cresço em seu calor,
E outras vezes sou seu pai ou seu irmão.
Amigos ou amantes temos muito amor,
Os mesmos sentimentos, mesma direção.
Às vezes te ensino coisas que eu sei
E outras vezes tantas tenho que aprender.
E nisso tudo nosso pensamento é lei,
Mantendo a gente unidos mesmo sem se ver.
Eu venho, eu volto,
Eu volto e me vou,
Aqui ou no além
Sempre contigo eu estou.
Letra e música de Flávio Fonseca
Eu volto e me vou,
E nesse vai-e-vem
Sempre contigo eu estou.
Às vezes estou lá e você fica aqui
E outras vezes fico e você vai pra lá.
O bom é quando juntos rimos por ali
Ou uma vida inteira nós passamos cá.
Às vezes a penumbra nos faz hesitar
E outras vezes tudo é claro como a paz,
Mas, conscientemente ou sem vislumbrar,
Sentimos que o sentido é viver demais.
Eu venho, eu volto,
Eu volto e me vou,
E nesse vai-e-vem
Sempre contigo eu estou.
Às vezes sou seu filho, cresço em seu calor,
E outras vezes sou seu pai ou seu irmão.
Amigos ou amantes temos muito amor,
Os mesmos sentimentos, mesma direção.
Às vezes te ensino coisas que eu sei
E outras vezes tantas tenho que aprender.
E nisso tudo nosso pensamento é lei,
Mantendo a gente unidos mesmo sem se ver.
Eu venho, eu volto,
Eu volto e me vou,
Aqui ou no além
Sempre contigo eu estou.
Letra e música de Flávio Fonseca
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