terça-feira, 12 de março de 1996

Asa delta

Voar
Sem razão pra temer
Só pelo prazer que dá
Reviravoltar no ar

Não há
Sensação de não ser
Quase não querer voltar
Desse doce volitar

Em paz
— Deixa o corpo dormir! —
E qual asa delta
Sentir-se leve


Escrita sobre música de Josué Bueno.
Gravada no CD A Força que Ecoa em Todo Canto.
Gravada pela cantora Vanja Santos, no CD Virtual Bossajazzsamba, na Dinamarca.

domingo, 10 de março de 1996

Bola na parede

Joga a bola na parede e a bola volta
Leva a vida na revolta e a vida chia
Joga a bola para cima e ela vai ao piso
Leva a vida no sorriso e na alegria

Voa sempre para o alto e ganha altitude
Lança a pedra no açude e a pedra afunda
Passa o dedo na gilete e o dedo corta
Deixa aberta a comporta e a água inunda

Um abraço no amigo e a amizade aumenta
Mas se for um xingamento o malquerer se acirra
Quando o fósforo se acende a chama ilumina
Cai um corpo na piscina e a água espirra

Tem um pensamento lindo e a beleza invade
Ama com sinceridade e o amor te pega
Abre os olhos, fica atento para ver o muro
Fica um tempo no escuro e a luz te cega

Bate à porta com respeito e a porta abre
Pede vinho ou vinagre e terás de graça
Busca mesmo com vontade e um dia acha
Não descuida, não relaxa, que o tempo passa

Põe um peso numa rede e a rede arria
Sintoniza e vigia pra ver se não erra
Toda ação traz reação de jeito tão perfeito
Tudo é causa e efeito nessa nossa Terra.

Joga a bola na parede e a bola volta
Leva a vida na revolta e a dor se planta
Joga a bola para cima e ela vai ao piso
Leva a vida no sorriso e a vida canta


Letra e música de Flávio Fonseca

quarta-feira, 24 de novembro de 1993

Ver

Quero ver
Flores verdes a conceber
Calmos frutos a reverter
As marés do acontecer
A fiar, tecer

Posso ver
Um futuro além do ser,
Luzes novas a rebentar,
Irromper, brotar
Recomeçar

Luz planalto
Ar pulsante
Azul amor

Sonho ver
Ecológicas mansidões
Paraísos, imensidões
Céus e nuvens nos corações
E por gerações

Ouso ver
A cidade gerando sons
Dia-a-dia a construir
Definir, sentir
Pra onde ir.


Letra e música de Flávio Fonseca

sexta-feira, 8 de outubro de 1993

Devo ir por um caminho
onde não se vai a esmo
(quem quiser que me imite):
inscrever-me assim sozinho
num duelo sem limite:
duelar comigo mesmo.

domingo, 28 de março de 1993

Quanto mais barulho eu ouço, mais silêncio eu faço.

quinta-feira, 21 de março de 1991

Ruído branco

Junta teus momentos,
O riso e a dor,
No moedor, e toma,
Sinta os sentimentos,
O bom e o mau,
No vendaval, e doma.

E saiba
Que tudo é uma coisa só,
Molécula viva do mesmo pó,
Que vai
Balançando no éter-paz,
Num tempo onde o tempo não passa mais.

Gira o arco-íris
De cor ou de som
E o branco tom é soma.
Segue teus porvires,
Sai fora de si,
Já e aqui é coma.

Cresçamos,
Qualquer hora ou lugar,
Porque inexistem agora e cá.
E vamos,
Que tudo nos faz crescer,
O fim do infinito é não morrer.


Musicado por Flávio Fonseca em 8/9/91.

sexta-feira, 17 de agosto de 1990

Caro irmão Ricardo,
ouve um pouco agora:
desta nova vida
sem lugar e hora;
desta luz querida
onde hoje ardo;

eu te falo um pouco.
Teu trabalho é belo,
teu esforço é nobre;
eu porém apelo:
tanto não se cobre,
nem se faça rouco,

use de mais calma.
Tudo tem seu tempo,
nada vem à toa;
não insista além, pois
toda ação ecoa
dentro de tu'alma,

meu querido mano.
Não se martirize,
se o que não entende
taxa como crise
o que d'arte pende;
mais um tolo engano

dos que há na Terra.
Mais importa a lenda
do criar infindo;
mais importa a senda
que procura o lindo,
e que nunca erra

se houver carinho.
O amor é guia,
tua fé é base;
ama e confia,
pois tudo é fase
neste teu caminho

em busca do certo.
Muito obrigado
pelo teu talento,
pelo abraço dado
com o pensamento.
Teu irmão.


Comentário em 14/10/2010:
Lembro-me vagamente. Eu estava na casa do Ricardo Movits, Cristina estava comigo. Não lembro o que conversávamos. Em dado momento, pedi a ele papel e caneta. Com certa urgência, eu diria. E escrevi. Obs: o nome do irmão então já falecido do Ricardo era Roberto.
Dois dias depois, o Ricardo responde:


Caro irmão Roberto,
Muito te agradeço
Pela inspiração;
Por esse começo
Da nova missão.
Sei que estás por perto

E por isso eu digo:
Tua luz me guia
Na minha loucura;
Rimas na poesia,
Cores na pintura;
Marcas do amigo

Que tanto te ama.
Tento registrar
Todo sentimento;
Sempre te beijar
Através do vento,
Que soprando chama

E me diz no ouvido:
Siga a busca eterna
Através da arte,
Do céu à caverna
Encontre a parte
De um mundo perdido

Nas separações.
Entre o não e o sim
Fico equilibrado,
Mas dentro de mim
Sei que estou errado,
Nas limitações

De uma idéia pura.
Pois a união
É universal.
Entre o sim e o não
Existe o real;
Parte da aventura

Que comigo guardo.
Conto com a beleza
Transmutada em paz,
Conto com a certeza
De ser sempre capaz.
Teu irmão.


Ricardo Movits
19 - 08 - 1990