quarta-feira, 24 de novembro de 1993

Ver

Quero ver
Flores verdes a conceber
Calmos frutos a reverter
As marés do acontecer
A fiar, tecer

Posso ver
Um futuro além do ser,
Luzes novas a rebentar,
Irromper, brotar
Recomeçar

Luz planalto
Ar pulsante
Azul amor

Sonho ver
Ecológicas mansidões
Paraísos, imensidões
Céus e nuvens nos corações
E por gerações

Ouso ver
A cidade gerando sons
Dia-a-dia a construir
Definir, sentir
Pra onde ir.


Letra e música de Flávio Fonseca

sexta-feira, 8 de outubro de 1993

Devo ir por um caminho
onde não se vai a esmo
(quem quiser que me imite):
inscrever-me assim sozinho
num duelo sem limite:
duelar comigo mesmo.

domingo, 28 de março de 1993

Quanto mais barulho eu ouço, mais silêncio eu faço.

quinta-feira, 21 de março de 1991

Ruído branco

Junta teus momentos,
O riso e a dor,
No moedor, e toma,
Sinta os sentimentos,
O bom e o mau,
No vendaval, e doma.

E saiba
Que tudo é uma coisa só,
Molécula viva do mesmo pó,
Que vai
Balançando no éter-paz,
Num tempo onde o tempo não passa mais.

Gira o arco-íris
De cor ou de som
E o branco tom é soma.
Segue teus porvires,
Sai fora de si,
Já e aqui é coma.

Cresçamos,
Qualquer hora ou lugar,
Porque inexistem agora e cá.
E vamos,
Que tudo nos faz crescer,
O fim do infinito é não morrer.


Musicado por Flávio Fonseca em 8/9/91.

sexta-feira, 17 de agosto de 1990

Caro irmão Ricardo,
ouve um pouco agora:
desta nova vida
sem lugar e hora;
desta luz querida
onde hoje ardo;

eu te falo um pouco.
Teu trabalho é belo,
teu esforço é nobre;
eu porém apelo:
tanto não se cobre,
nem se faça rouco,

use de mais calma.
Tudo tem seu tempo,
nada vem à toa;
não insista além, pois
toda ação ecoa
dentro de tu'alma,

meu querido mano.
Não se martirize,
se o que não entende
taxa como crise
o que d'arte pende;
mais um tolo engano

dos que há na Terra.
Mais importa a lenda
do criar infindo;
mais importa a senda
que procura o lindo,
e que nunca erra

se houver carinho.
O amor é guia,
tua fé é base;
ama e confia,
pois tudo é fase
neste teu caminho

em busca do certo.
Muito obrigado
pelo teu talento,
pelo abraço dado
com o pensamento.
Teu irmão.


Comentário em 14/10/2010:
Lembro-me vagamente. Eu estava na casa do Ricardo Movits, Cristina estava comigo. Não lembro o que conversávamos. Em dado momento, pedi a ele papel e caneta. Com certa urgência, eu diria. E escrevi. Obs: o nome do irmão então já falecido do Ricardo era Roberto.
Dois dias depois, o Ricardo responde:


Caro irmão Roberto,
Muito te agradeço
Pela inspiração;
Por esse começo
Da nova missão.
Sei que estás por perto

E por isso eu digo:
Tua luz me guia
Na minha loucura;
Rimas na poesia,
Cores na pintura;
Marcas do amigo

Que tanto te ama.
Tento registrar
Todo sentimento;
Sempre te beijar
Através do vento,
Que soprando chama

E me diz no ouvido:
Siga a busca eterna
Através da arte,
Do céu à caverna
Encontre a parte
De um mundo perdido

Nas separações.
Entre o não e o sim
Fico equilibrado,
Mas dentro de mim
Sei que estou errado,
Nas limitações

De uma idéia pura.
Pois a união
É universal.
Entre o sim e o não
Existe o real;
Parte da aventura

Que comigo guardo.
Conto com a beleza
Transmutada em paz,
Conto com a certeza
De ser sempre capaz.
Teu irmão.


Ricardo Movits
19 - 08 - 1990

segunda-feira, 2 de abril de 1990

Tema do chapéu

Você pode pegar o chapéu que quiser
Você pode pegar o chapéu que quiser
Mas cuidado, olhe bem, pense bem o que é que você vai fazer
Você pode pegar qualquer um
Fica bom, fica não, fica bom, fica não,
Veja bem o chapéu que você vai pegar
Fica bom, fica não, fica bom, fica não,
Você pode pegar o chapéu que quiser
A escolha é sua, errada ou certa, você é que faz
Você pega o chapéu que quiser.


Composta (música e letra) no Rio de Janeiro para a peça teatral "Em quem cabe o chapéu?", criação coletiva do grupo "Conta que Faz de Conta", direção Marco Polo.

Lobos

A garota não tem saída,
A garota vai ser comida
E ninguém vai vir pra salvar!
Sou esperto e bem malandro,
Ninguém foge do meu abraço,
Eu seduzo, engano e caço.
A garota lá vem cantando
E nem sabe que vou atacar.

Que menina engraçadinha,
Que passeia assim sozinha,
Distraída e sem me ver!
A floresta é tão bonita,
Aqui mora a Natureza,
Verde ver e rever beleza,
Vem o vento e o verde agita...
(O que é mesmo que eu ia fazer?)

Acontece que eu sou um lobo
E não posso bancar o bobo,
A menina eu vou comer.
Isto aqui é uma floresta,
Lobo come menina viva,
Eu não tenho alternativa,
Me desculpem, mas só me resta
Direitinho cumprir meu dever.

Pode entrar, a floresta é bela,
O caminho é melhor por ela
E eu estou aqui pra ajudar!
Posso te proteger de tudo,
Pois conheço os mil perigos,
Todos bichos são meus amigos,
Eu serei aqui seu escudo!
(Mas depois eu vou te devorar!)


Composta (música e letra) no Rio de Janeiro para a peça teatral "Em quem cabe o chapéu?", criação coletiva do grupo "Conta que Faz de Conta", direção Marco Polo.