sábado, 7 de fevereiro de 1981

Kid Mimoso

Kid Mimoso,
Galã e garboso,
Um herói incorrigível,
Posição irreverente,
Coração efervescente,
Olhou pra mim e disse, rindo:
- Não demore, vá em frente!

Muito pintoso,
Sagaz e manhoso,
Quis, por capricho, me assustar.
Mas, tão fofinho e amigo,
Só conseguiu me conquistar.

Kid Mimoso,
Rapaz curioso,
Um herói apaixonado,
Com um ar de importante,
Lá de cima da estante,
Sentadinho, educado,
Me vigia a todo instante.

Lindo, jeitoso,
Boneco charmoso,
Quase que, sem querer, sorriu,
Pois descobri que ele veio
Numa estrela que caiu.

Kid Mimoso,
Fiel, carinhoso,
Num pequeno bate-papo,
Pulsação incandescente,
Audição clarividente,
Aconselhou, devagarinho:
- Não demore, vá em frente!


Letra e música de Flávio Fonseca

sábado, 31 de janeiro de 1981

Xilingue

É Ouro Fino, Pouso Alegre, Jacutinga,
Muita gente, muita pinga,
Carnaval de interior.
É Christiane, Margareth e Celeste,
É a beleza do agreste
Que desperta este amor.

Borda da Mata, a cidade tão pertinho,
Mas o trem, devagarzinho,
Como custa a chegar!
É paisagem, correria, tira-foto,
A garota vai de moto
E só se vê ela passar.

É a Rosângela e Telma na esquina,
A gente foge das meninas
Pra depois morrer de rir.
A serenata na calçada, um segundo
E o melhor café do mundo
O Bar do Paulo vai servir.

É o piano esperando bem em frente,
E a Débora, contente,
Quer ouvir o violão.
E muita coisa que se guarda escondida,
Por exemplo: nossa ida
Pra lá de Monte Sião.


Composta (letra e música) em Ouro Fino/MG, durante férias com o amigo pianista e compositor Ronaldo Pellicano.

domingo, 23 de novembro de 1980

Sou capaz

Só um pouco de vento
Ou um monte de chuva
Seria capaz de trazer
De volta o claro da lua;
Porém, apenas a olhos vis.
Porquanto estou feliz
Vejo a lua por mais que se esconda.

Sou capaz
De atravessar tanta barreira,
Transpor tanto sereno,
Chegar tranquilo e pleno
Aonde tantos desistiram de chegar
E de lá gritar
Para que ouçam
Ao pé do ouvido
Que eu não duvido
Que possam me alcançar.


Letra e música de Flávio Fonseca & Ronaldo Pellicano.

sábado, 18 de outubro de 1980

Desafio

Quando começou
Eu era um menino - e ainda sou -
Criança inocente, sem saber
Sentir e distinguir amor de Amor,
Eu sempre me entregava pra valer
E às vezes demorava a perceber
Que para amar não basta um amor eterno.

Quando de você
O mesmo amor sincero eu vi nascer,
Até lutei pra não retribuir,
Mas quando dei por mim, já era seu,
E foi a sua vez de evitar,
Forçou-me pouco a pouco a entender
Que a estratégia deveria ser constante.

E eu fui
Descaminhando,
Escorregando,
Me segurando pra não ver você
E fui
Compenetrado,
Injustiçado,
Não conformado por não ver você,
Mas fui
Bem consciente,
Indiferente,
Tendo na mente que quero você.

Hoje, bem depois,
Menino sou apenas pra sorrir
E devo a você o que aprendi;
Te quero como nunca antes quis
E luto com maior convicção,
Pois sei que somos nós, em vez de dois,
Que juntos seguiremos, sempre lado a lado.

Hoje sei dizer
Que todo desafio deve ser
Um pouco de fatal e invulgar,
Pois só o amor se presta pra vencer
E nunca a gente deve esquecer
Que o próprio amor, por ser a condição,
Já é o maior de todos estes desafios.

E eu vou
Desconcentrando,
Aliviando,
Me alegrando com um beijo seu
E vou
Desmascarado,
Reconfortado,
Desenfreado a um beijo seu,
Mas vou
Onisciente,
Impaciente,
Convenientemente sendo seu.


Letra e música de Flávio Fonseca

quarta-feira, 1 de outubro de 1980

No canto direito de meu quarto há um móvel muito útil, de que me valho frequentemente. Feito de madeira nova - ainda sem rabiscos -, suporta alguns livros que não couberam na estante. Quando sento-me à sua frente, fico diante da janela; e escrevo olhando para o céu.

sexta-feira, 20 de junho de 1980

Fuga

Fuga
Meia volta e perco o rumo
Sem razão e sem desculpa
Vou andando sem saber
Pra que lado gira o sol
Fuga
Insensata e descabida
Incessante e dolorida
De quem sabe o que fazer
Mas já não sabe o que faz

Ah, amor, eu não consigo mais ser
Um pedaço de vida doída
Que já não é de nós
Que já não é vivida
Que já não é de nós
Que já não tem sentido.

Fuga
Meia volta e vou sofrendo
Sem adeus e sem motivo
Como quem vai sem querer
Porque não sabe ficar
Fuga
Insensata e insane
Por amor e por loucura
Como quem apenas vai
Mas já não sabe onde vai.


Letra e música de Flávio Fonseca

sábado, 7 de junho de 1980

Os oito sentidos

Ouvir tua voz me alimenta
Saber tuas palavras me mantém aceso
Olhar teu olhar me incendeia
Sentir teu pensamento me mantém alerta

E esta força me faz recordar
E esta força me faz suportar

Provar tua boca me mata
Amar o teu sorriso me mantém vivendo
Cheirar o teu ar me estontece
Tocar os teus cabelos me mantém contigo

E esta força me faz levantar
E esta força me faz retentar

Amar tua voz me incendeia
Ouvir tuas palavras me mantém alerta
Tocar teu olhar me estontece
Saber teu pensamento me mantém contigo

E esta força me faz procurar
E esta força me faz rebentar

Olhar tua boca me salva
Provar o teu sorriso me mantém aceso
Sentir o teu ar me alimenta
Cheirar os teus cabelos me mantém vivendo

E esta força me faz renegar
E esta força me faz te encontrar.


Letra e música de Flávio Fonseca